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sábado, 14 de agosto de 2010

Sobre os conceitos de Campo, Capital e Habitus em Pierre Bourdieu


Sabrina Rosa

Campo

O conceito de campo complementa o de habitus, pois para Bourdieu (2001) o campo consiste no espaço em que ocorrem as relações entre os indivíduos, grupos e estruturas sociais, espaço este sempre dinâmico e com uma dinâmica que obedece a leis próprias, animada sempre pelas disputas ocorridas em seu interior, e cujo móvel é invariavelmente o interesse em ser bem-sucedido nas relações estabelecidas entre os seus componentes (seja no nível dos agentes, seja no nível das estruturas).

“É um universo social particular constituído de agentes ocupando posições específicas dependentes do volume e da estrutura do capital eficiente dentro do campo considerado. É um sistema de posições que podem ser alteradas e contestadas.”

Representa um espaço simbólico, como um microcosmo dotado de leis próprias[1], no qual as lutas dos agentes determinam, validam e legitimam representações. É o poder simbólico. Nele se estabelece uma classificação dos signos, do que é adequado, do que pertence ou não a um código de valores. No campo, local empírico de socialização, o habitus constituído pelo poder simbólico surge como todo e consegue impor significações tornando-as legítimas. Os símbolos afirmam-se, assim, na noção de prática, como os instrumentos por excelência de integração social, tornando possível a reprodução da ordem estabelecida.


* Exemplo: no Campo do Esporte as lutas travadas pelos atletas para se afirmarem não é o mesmo tipo de luta que o professor deve realizar para se afirmar no Campo Acadêmico. Tais lutas seguem regras diferentes devido ao fato de serem campos diferentes.

Capital

É um conceito que discute a quantidade de acúmulo de forças dos agentes em suas posições no campo. Os capitais possuem volume (quantidade) e estrutura (tipo de capital). São quatro os principais tipos de capital: o econômico, o cultural, o social e o simbólico.
1. Econômico: ligado aos meios de produção e renda.
2. Cultural: se subdivide em 3 tipos – a saber: institucionalizado (diplomas e títulos), incorporado (expressão oral) e objetivo (posse de quadros ou obras de arte).
3. Social: é o conjunto das relações sociais de que dispõe um indivíduo, sendo que, é necessária a manutenção das relações sociais, das redes (convites recíprocos).
4. Simbólico: está ligado à honra, ao reconhecimento e corresponde ao conjunto de rituais (etiquetas, protocolo).

* Exemplo: um agente que possui o capital econômico teria mais oportunidades de adquirir outros tipos de capitais, como o cultural objetivo materializado na forma de quadros e obras de arte em geral, entre outros.

Habitus

"(...) sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, apreciações e ações, e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas que permitem resolver os problemas da mesma forma e graças às correções incessantes dos resultados obtidos, dialeticamente produzidas por estes resultados" (BOURDIEU, Pierre. In: ORTIZ, Renato Org. Pierre Bourdieu Sociologia. São Paulo: Ática. 1983. pg. 65).

"sistemas de posições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, quer dizer, enquanto princípio de geração e de estruturação de práticas e de representações que podem ser objetivamente 'reguladas' e 'regulares', sem que, por isso, sejam o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu objetivo sem supor a visada consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-las e, por serem tudo isso, coletivamente orquestradas sem serem o produto da ação combinada de um maestro" (BOURDIEU apud MICELI, 1987: XL).

Segundo Bourdieu (2001), o Habitus é como uma segunda natureza, em parte autônoma, sendo que é histórica e presa ao meio. Ele usa o termo Infraconsciente para localizar o habitus, visto que, seria um princípio de um conhecimento sem consciência, de uma intencionalidade sem intenção. Podendo ser transferido e adquirido de maneira explícita ou implícita, através da aprendizagem e funciona como um sistema de esquemas geradores de estratégias, que podem ser ou não de acordo com os interesses dos seus autores, sem terem sido idealizadas com esse fim.

O Habitus então funcionaria como um esquema de ação, de percepção e de reflexão, que está presente na corpo e na mente – como em posturas e gestos (hexis), maneiras de ver e classificar da coletividade de um determinado campo, operando distinções. As disposições presentes no habitus são plásticas e flexíveis, podendo ser fortes ou fracas e são adquiridas pela interiorização das estruturas sociais.

* Exemplo: o habitus, as disposições do Campo Acadêmico e a postura diferenciada de seus agentes em relação aos dos outros campos (como o Campo Esportivo). Os intelectuais são possuidores de grande volume de capital cultural. Nesse campo é valorizado e incentivado a aquisição de títulos e diplomas, a boa oratória e, principalmente a própria produção do conhecimento.


[1] Para Bourdieu, cada campo possui o seu Nomos (lei fundamental de cada campo) e o seu Doxa (pressupostos cognitivos e avaliativos aceitos e reconhecidos pelos agentes do campo, sendo fortemente naturalizados).


Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. In: ORTIZ, Renato Org. Pierre Bourdieu Sociologia. São Paulo: Editora Ática. 1983.

________________. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil. 2002.

Revista Espaço Acadêmico. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/024/24cneves.htm - acesso em 21 de Junho de 2010.

SANTOS, Pablo. Sobre a Sociologia Educacional de Pierre Bourdieu: primeiros conceitos. Disponível em: http://pt.shvoong.com/social-sciences/education/1100054-sobre-sociologia-educacional-pierre-bourdieu/ - acesso em 21 de Junho de 2010.

Wikipédia a enciclopédia livre. Disponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Bourdieu – acesso em 16, 18 e 21 de Junho de 2010.





sábado, 8 de maio de 2010

O Sistema Eleitoral de Lista Aberta no Brasil

RESENHA

Do Texto: NICOLAU, Jairo. “O sistema eleitoral de lista aberta no Brasil”. In: NICOLAU, Jairo e POWER, Timothy (orgs.). Instituições representativas no Brasil: balanço e reforma. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007, pp. 97 - 122.

Sabrina Rosa
 
 
O objetivo do autor é fazer uma análise sistemática do funcionamento do sistema de lista aberta no Brasil, com foco nas eleições para a Câmara dos Deputados. Para isso, Jairo Nicolau inspira-se no modelo proposto por Gallaguer e Mitchell e inicia expondo a história e o funcionamento do sistema de lista aberta em vigor no país. Depois avalia os efeitos desse sistema em três dimensões – partidos, eleitores e a relação dos deputados com as bases eleitorais. O texto termina debatendo sobre, segundo o autor, um tema fundamental para a teoria democrática, que é a capacidade que o sistema representativo oferece ao eleitor de punir ou recompensar os legisladores através do voto.

O autor ainda diz reunir evidências de três pesquisas realizadas com deputados e eleitores no Brasil para conectar o caso brasileiro na moderna reflexão sobre os sistemas eleitorais.

Jairo Nicolau, antes de entrar no primeiro tópico, lista razões pelas quais o sistema de lista aberta no Brasil chama atenção – pela longevidade, sendo que nenhum país do mundo utiliza a lista aberta há tantos anos, pela magnitude do eleitorado brasileiro em contraste com o de outros países que utilizam o mesmo sistema e a terceira razão é associada a combinação da possibilidade de coligações eleitorais, eleições simultâneas para outros cargos (presidente, governador de estado e senadores) e a distorção na representação dos estados na Câmara dos Deputados.

Origem e funcionamento da lista aberta no Brasil

O autor explica que em 1932 a primeira versão de representação proporcional adotada no Brasil já previa o voto preferencial, pois a cédula podia conter um grande número de candidatos, o eleitor podia escolher candidatos de diferentes partidos e até candidatos que não tinham partido – modelo parecido com o da Suíça atualmente, salienta o autor.
Mas, esclarece que o processo de apuração privilegiava o nome que encabeçava a lista de candidatos, visto que o cálculo da distribuição das cadeiras entre os partidos só considerava esse voto; os outros da lista só podiam disputar as cadeiras não alocadas na primeira distribuição, ou seja, as sobras. Este sistema vigorou nas eleições de 1933 e 34, mas por causa da complexidade e demora na apuração recebeu críticas que estimularam a adoção de uma versão mais simples em 1935, na qual o eleitor passaria a votar em um único nome. Contudo a suspensão das eleições durante o governo de Getúlio (1937 – 1945) adiou a nova regra para as eleições de 1945.

O sistema em vigor no Brasil oferece ao eleitor duas opções: votar em um nome ou partido. As cadeiras obtidas pelos partidos ou coligações são ocupadas pelos candidatos mais votados da lista, sendo que as coligações entre partidos funcionam como uma única lista e independente do partido, os mais votados dessa lista se elegem.

No Brasil, os eleitores podem votar em um nome ou na legenda de um partido. O voto de legenda é contado só para distribuir as cadeiras entre os partidos, mas não tem efeito na distribuição das cadeiras entre os candidatos. Diferente do Chile, da Finlândia e da Polônia onde os eleitores têm que votar em um nome da lista para ter o seu voto contado para o partido.

O texto salienta dois aspectos que merecem destaque na história da lista aberta no Brasil. O primeiro é a forma como os nomes dos candidatos foram apresentados aos eleitores – a cédula brasileira nunca apresentou uma lista completa de todos os candidatos. Nos três diferentes processos de votação empregados desde 1945 (a cédula impressa pelos partidos, a cédula oficial e a urna eletrônica), votar nas eleições para a câmara dos deputados sempre foi escrever (ou digitar, após o surgimento da urna) o nome ou o número do candidato sem menção aos outros componentes da lista. Isso, associado à escolha de outros cargos pelo sistema majoritário na mesma eleição, reforçou nos eleitores a falsa idéia de que as eleições para a Câmara dos Deputados são feitas segundo uma regra majoritária em que todos os candidatos concorrem entre si.

O segundo aspecto refere-se ao processo de institucionalização do voto partidário (legenda). Não havia cédula oficial nas eleições para a Câmara dos Deputados, realizadas entre 1945 e 1958. As cédulas eram impressas e distribuídas pelos partidos no dia das eleições, pelos cabos eleitorais ou pelo presidente das mesas no interior da cabine de votação. Votar significava ir aos locais de votação e colocar a cédula confeccionada pelos partidos em um envelope e depois na urna. Os votos de legenda eram contabilizados apenas no processo de apuração, quando houvesse imprecisões de preenchimento, mas fosse possível identificar o partido no qual o eleitor tinha votado.

A cédula oficial, impressa pela Justiça Eleitoral começou a ser utilizada em 1962 e tornou o processo mais difícil porque o eleitor passou a ter que escrever o nome ou número do candidato, e/ou a sigla do partido ou coligação a qual este concorria. A cédula oficial introduziu de maneira mais formal o voto de legenda ao apresentar um espaço específico para o eleitor votar em um partido.

Durante o Regime Militar as regras só foram alteradas em 1982 quando a cédula não trouxe espaço especifico para o eleitor votar na legenda. E em 1986 nas primeiras eleições após o a ditadura a opção pelo voto exclusivo em um partido ficou ainda mais clara, pois a cédula manteve a antiga opção de votar em um nome e/ou número de um candidato, mas trouxe a lista de todos os partidos, ao lado da qual o eleitor poderia marcar o de sua preferência. A lista das siglas dos partidos foi retirada da cédula em 1994 e 98 e, para votar na legenda, o eleitor teve que escrever o nome ou número do partido, sendo que em 1998 já faz isso na urna eletrônica.

A seleção de candidatos

Na disputa eleitoral para a Câmara dos Deputados, os partidos podem apresentar uma lista de candidatos de até uma vez e meia o número de cadeiras da circunscrição eleitoral; no caso de coligação esse número sobe para duas vezes.

Desde 1998, há uma quota de candidatos por gênero que o partido deve respeitar, introduzida com o objetivo de ampliar o número de mulheres representadas no Legislativo.

Um candidato não pode concorrer em listas de outros estados nem disputar outros cargos na mesma eleição e para ser candidato a qualquer cargo, um cidadão deve estar filiado a pelo menos um ano em um determinado partido. Existe também a exigência de vínculo territorial (domicílio eleitoral) a um determinado município/ estado a pelo um ano. Fora as exigências de alfabetização e de idade mínima de 21 anos para ser candidato a deputado federal.

Até 1998, a legislação garantia aos deputados com mandato, ou que tivessem exercido durante a legislatura em curso, o registro da candidatura para o mesmo cargo pelo partido ao qual estivessem filiados (candidatura nata). Os responsáveis por escolher os candidatos do partido não tinham poder de excluir os parlamentares da lista, até o Supremo Tribunal Federal julgar inconstitucional esse privilégio – e ele deixou de vigorar nas eleições de 2002.

A legislação partidária estabelece que a norma para a escolha dos candidatos deve ser definida pelo regimento interno de cada partido. A única exigência é que façam uma convenção no âmbito nacional para formalizar a escolha dos candidatos.

O autor diz que não se sabe se os partidos organizam comitês específicos para escolher os candidatos, ou se as lideranças estaduais envolvem-se nessa tarefa. Mas que dois aspectos devem ser ressaltados: que nenhum partido utiliza prévias internas com os filiados para a escolha dos nomes e que as convenções oficiais têm caráter meramente homologatório, já que os candidatos são escolhidos antes das convenções.

As estratégias de campanha eleitoral

Um candidato a deputado federal tem autonomia para organizar sua campanha. Os candidatos podem arrecadar, gastar e prestar contas diretamente à Justiça Eleitoral, sem a necessidade do partido avaliar os gastos.

O tipo de campanha que um candidato faz depende principalmente do seu perfil político e dos recursos que dispõe. Mas praticamente todos organizam atividades que permitem contato direto com os eleitores em lugares públicos – comícios, panfletagens, visitas a áreas de concentração popular. Ou em eventos privados – visitas ou reuniões com pequenos grupos. Nesses eventos o candidato distribui material impresso com dados de sua biografia e oferece brindes aos eleitores. Além disso, os candidatos promovem o seu nome e número em propagandas afixadas em residências.

Devido a existência de práticas clientelistas, em 1999, foi aprovada a lei que proíbe que os candidatos doem, ofereçam, prometam ou entreguem ao eleitor vantagens em troca de voto. Os infratores pagam multa e podem perder o registro da candidatura ou o mandato.

É fundamental arregimentar eleitores para apoiar a sua campanha. E os que têm mais recursos organizam redes de apoio nos menores municípios, ou em bairros nas grandes cidades. Essas redes podem contar com o apoio de vereadores, prefeitos, lideranças locais sem mandato e candidatos a outros cargos na mesma eleição – deputados estaduais principalmente. O apoio de lideranças locais prevê compromissos de apoio no futuro, em eleições locais, ou pagamento de apoio recebido no passado.

Os candidatos podem contratar profissionais para fazerem tarefas específicas, ou contar com o apoio de militantes voluntários e, ainda têm o direito de aparecer no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral, no rádio e na televisão. O tempo é distribuído proporcionalmente à representação dos partidos na Câmara dos Deputados, o que significa que os maiores partidos dispõem de bem mais tempo do que os pequenos.

Efeitos

Efeitos sobre os partidos

O autor cita o artigo de Carey e Shugart, que trata dos efeitos dos sistemas eleitorais sobre a estratégia eleitoral dos candidatos. E salienta que a preocupação central é saber se os sistemas eleitorais oferecem incentivos para que os candidatos ao Legislativo cultivem a reputação personalizada ou a partidária.


Definição dos autores

Reputação Personalizada: “se as perspectivas de sucesso eleitoral aumentam como resultado de ser pessoalmente bem conhecido e apreciado pelo eleitor, então a reputação pessoal importa. Quão mais importa, mais valorizada é a reputação pessoal”.

Reputação Partidária: “refere-se à informação que o rotulo do partido transmite aos eleitores em um dado distrito eleitoral”.

Os estudiosos dos sistemas eleitorais geralmente concordam que a lista aberta tende a estimular as campanhas centradas no candidato.
Existem poucas pesquisas empíricas acerca dos efeitos da lista aberta sobre os partidos no Brasil. E a melhor evidência que existe reforça a idéia de campanhas centradas no candidato. Jairo cita Carvalho, que fez uma pesquisa de opinião detalhada, com os deputados federais em 1999. Eles responderam diversas questões e reconheceram a grande autonomia de suas campanhas e a reduzida capacidade que os partidos teriam para intervir no processo eleitoral.

Segundo Katz, os candidatos à reeleição podem perder o mandato por duas razões: por falha do partido, ou por falta do candidato. A derrota de um candidato é atribuída ao partido quando não há nome novo na lista final dos eleitos por aquele partido (quando os parlamentares da legislatura passada reelegem-se), ou quando o partido pelo qual ele concorreu não elegeu ninguém. A falha é do candidato quando o partido elege algum nome novo e ele fica de fora.

Efeitos sobre os eleitores

Os estudos sobre o comportamento eleitoral se dedicam a investigar as motivações que levam o eleitor a votar em um determinado candidato. Na definição apresentada por Cain, Farejohn e Fiorina o voto personalizado refere-se à porção do apoio eleitoral de um candidato que se origina em suas qualidades pessoais, qualificações, atividades e desempenho. A parte do voto que não é personalizada inclui apoio a um candidato baseado na sua filiação partidária, determinadas características do eleitor, como classe, religião e etnia, reações às condições nacionais, tais como o estado da economia, e avaliação centrada no desempenho do partido que está no governo.

Apesar de não esgotar todas as possibilidades de escolhas dos eleitores, a distinção entre voto partidário e personalizado é dominante nos estudos sobre os efeitos dos sistemas eleitorais nos eleitores.

Efeitos sobre a relação dos deputados com bases eleitorais

Vários fatores determinam o tipo de relação que os deputados desenvolvem com o eleitorado durante o mandato, especialmente se eles prestam ou não algum tipo de atendimento particular aos eleitores: a distribuição de poder no interior do Legislativo; a natureza dos partidos; a possibilidade de repasse de recursos do orçamento para as circunscrições dos representantes; o processo de seleção dos candidatos pelos partidos e as atribuições das unidades subnacionais.

No Brasil, os deputados federais desenvolvem padrões de prestação de contas, associados a outros fatores, tais como a sua base eleitoral, o tipo de ambição de carreira, a especialização parlamentar e o vínculo com determinados grupos de interesse. O autor exemplifica: um deputado com trajetória orientada para defesa de certas políticas (especialista em temas específicos ou representante de grupos de interesse) ou que pertença a elite parlamentar pode conseguir espaço na mídia nacional para cobertura de sua atividade e deixar de realizar ações particularistas para os seus redutos eleitorais.

Na pesquisa de Carvalho o primeiro dado que salta aos olhos é a importância central da conexão com a vida municipal. A visita aos municípios onde o deputado foi bem votado aparece no topo da lista como a atividade mais importante. A seguir, aparece a liberação de emendas do orçamento e a intermediação do pleito dos prefeitos e lideranças locais.

Punir ou recompensar os deputados no Brasil

O processo pelo qual os eleitores controlam por intermédio do voto seus representantes é um tema caro à teoria democrática. Na versão tradicional - chamada por Powell Jr. (2000) de accountability model - as eleições seriam o momento privilegiado para punir ou recompensar os representantes: os bons governantes seriam reconduzidos ao poder, enquanto os maus seriam afastados. O modelo de accountability seria baseado em um elemento retrospectivo, de avaliação por parte dos eleitores, dos que já estão no poder.

Vale a pena explorar em que medida o sistema representativo brasileiro oferece aos eleitores mecanismos para controlar eleitoralmente os seus representantes. Uma primeira versão de voto retrospectivo pressupõe três passos:

1) que o eleitor se lembre em quem votou;
2) que o candidato seja eleito;
3) que o eleitor acompanhe a atividade do representante

Alternativamente, é possível pensar uma modalidade de voto retrospectivo que desconsidere a memória do voto na eleição anterior. Nesse caso, o eleitor poderia decidir votar em um deputado que tenha chamado a sua atenção positivamente durante a legislatura ou simplesmente eliminar das suas escolhas nomes que possam ter se destacado negativamente. Assim, o eleitor não precisaria lembrar em quem votou, mas conhecer um deputado em atividade.

O cruzamento com do padrão de escolha (personalizada ou partidária) com o tipo de controle eleitoral (retrospectivo, não-retrospectivo) produz quatro tipos de ideais de escolha nas eleições para a Câmara dos Deputados:

 1) Voto personalizado e retrospectivo: tem limites objetivos para atingir grande número de eleitores (ausência de memória eleitoral e desconhecimento dos deputados com mandato).
2) Voto partidário e retrospectivo: composto pelo reduzido número de eleitores que consideram o partido mais importante que o candidato e votam sempre no mesmo partido, ex. PT.
3) Voto partidário não-retrospectivo: composto por eleitores que votam em uma legenda, atendendo ao pedido de uma liderança estadual ou de um candidato a um cargo majoritário.
4) Voto personalizado não-retrospectivo: composto por eleitores que são mobilizados, principalmente, pelos apelos da campanha, não contando com os apelos de candidato com mandato.

A sugestão do autor é que a grande maioria dos eleitores faz suas escolhas a partir de apelos eleitorais que não estão associados a um julgamento do mandato.

Conclusão

Jairo afirma que o objetivo do texto foi apresentar um quadro geral do funcionamento do sistema eleitoral de lista aberta nas eleições para a Câmara dos Deputados no Brasil. E que apesar de ser um estudo de caso sobre as diversas dimensões de um sistema eleitoral em um dado país, procurou dialogar com estudos de corte mais comparativo.

O trabalho revelou algumas especificidades da experiência brasileira: a possibilidade do voto de legenda, a alta taxa de derrotas dos candidatos por outros do mesmo partido – possível evidência da competitividade - a importância da conexão com as redes municipais para a atividade parlamentar e a reduzida capacidade de controle eleitoral dos representantes.

O Autor instiga a realização de novas pesquisas empíricas dizendo que fica uma longa pauta para o futuro. Porque foi assinalada a necessidade de realizarmos mais pesquisas empíricas sobre alguns temas como: as motivações dos eleitores quando escolhem os deputados, o papel das redes de apoio nos municípios na campanha e durante o mandato, o processo de seleção de candidatos pelos partidos, o perfil dos cidadãos que se candidatam e o papel dos diversos recursos de campanha sobre o sucesso dos candidatos.

sábado, 7 de junho de 2008

Auguste Comte

A filosofia comteana foi uma resposta aos conflitos resultantes da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, ocorridos na primeira metade do século XIX, em Paris.

O primeiro tema da filosofia de Comte, A Filosofia da História, pode ser condensada na lei dos três estados, onde as ciências e o espírito humano desenvolvem-se através de três fases: a teológica, a metafísica e a positiva.

Na fase teológica, é a imaginação que exerce a função principal, explicando o mundo através da existência de deuses e espíritos.

Além das funções de explicação da natureza, o raciocínio teológico exerce o importante papel de coesão social, incentivando os princípios morais e baseando-se no autoritarismo como forma de poder imutável, correspondendo-se com a monarquia como forma política.

Esse mesmo estado teológico é dividido em três períodos que se sucedem: fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo.

No fetichismo, os seres naturais possuem uma vida espiritual parecida com a do homem.
O politeísmo tira o principio vital dos seres naturais, explica a animação deles como sendo de responsabilidade de seres invisíveis que habitam um mundo superior.
O monoteísmo reúne todas as divindades numa só e aumenta a distância entre os seres e suas teorias explicativas.

No desenvolvimento do espírito humano, a fase teológica monoteísta representa um estado de transição para o estado metafísico.

A metafísica se caracteriza pela dissolução do estado teológico. Na mentalidade metafísica, os diferentes grupos de fenômenos são explicados através de forças físicas, químicas e força vital, que acabam substituindo os deuses da fase teológica. Sendo que todas essas forças foram reunidas numa só – a natureza – que se revelaria como o deus único do monoteísmo.

Na política, o espírito metafísico corresponde à substituição dos reis pelos juristas, concebendo a sociedade originária de um contrato.

A metafísica e a teologia tentam explicar a natureza íntima das coisas, sua origem e seu destino, e a maneira pela qual são produzidas. A diferença está no fato de que a metafísica coloca o abstrato no lugar do concreto e o argumento no lugar do imaginário.

O estado positivo se caracteriza pela observação, que antecede a imaginação e a argumentação. A visão positiva abandona a consideração das causas dos fenômenos e transforma-se em pesquisa de suas leis, concebidos como relações constantes entre fenômenos observáveis.

A filosofia positiva, ao contrário dos outros estados, considera impossível reduzir os fenômenos a um só principio, pois a experiência não mostra mais do que uma limitada interconexão entre determinados fenômenos. Assim, cada ciência se ocupa apenas com certo grupo deles.

A unidade que o conhecimento pode alcançar é subjetiva, baseando-se no fato de se empregar o mesmo método. E uma idêntica metodologia produz convergência e homogeneidade de teorias. Essa unidade, além de individual, também é coletiva; fazendo da filosofia positiva o fundamento intelectual da fraternidade entre os homens.

O positivo é caracterizado pela previsibilidade – ver para prever. A previsibilidade científica adianta o desenvolvimento da técnica, interligando o estado positivo à indústria. O positivo estuda o real, o certo, o preciso, o útil.

Na política e no social, o estágio positivo marca a passagem do poder espiritual para as mãos dos sábios e cientistas, e do poder material para os industriais.

O segundo tema da filosofia de Comte é a classificação das ciências que, de certa forma, está vinculado à filosofia da história. No segundo tema, cada ciência respeita a periodização dos três estados, porém, não ao mesmo tempo.

As ciências classificam-se de acordo com a maior ou menor simplicidade de seus objetos, onde se estabelece a seqüência: matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia.

Comte diz que a sociologia é o fim essencial de toda a filosofia positiva e inclui parte da psicologia, a economia política, a ética e a filosofia da história.

A filosofia de Comte distingue a estática da dinâmica social, onde a estática estuda a condição constante da sociedade, e a dinâmica estuda as leis do desenvolvimento progressivo.

A noção da estática é a ordem, da dinâmica, é o progresso, onde a segunda é subordinada a primeira, porque o progresso vem somente depois da ordem, e acaba aperfeiçoando o que é permanente na sociedade, como por exemplo: a família, a linguagem, a religião.

O positivismo também teve um impacto religioso, mas a intenção era que fosse uma nova religião de verdade. Batizado como a religião da humanidade, teve seus fundamentos teóricos na sociologia que Comte concebeu, que é o terceiro tema da filosofia de Comte – A reforma das instituições.

O positivismo não teve grande seguimento religioso na Europa, porém, no Brasil exerceu muita influência. Comte organizou o saber humano baseado na ciência, sem conceitos teológicos nem metafísicos, classificou as ciências e organizou a sociedade.

Fonte de Pesquisa para este post: Coleção Os Pensadores - São Paulo: Ed. Victor Civita, 1983